
Quem não lembra da declaração:
Cachorro é um ser humano como outro qualquer!!! Pois é, éssa pérola foi proferida pelo "imexível" Rogério Magri, ministro do trabalho em tempos equivocados, corruptos e irresponsáveis do Governo Collor. Na época isso causou indignação e merecida gozação, mas de alguns anos pra cá uma grande parte da população tem levado essa prática ao pé da letra.
É cachorro na padaria, na livraria, no shopping center, no supermercado, no elevador, no aeroporto ("viemos buscar os pais dela", fala pra mim uma senhora com um luluzinho no colo enquanto aguardava a chegada de sua irmã e cunhado)... cachorro com capa de chuva, com sapatinho, com lacinho, cachorro pintado de rosa e de azul. Não estou falando só de cachorrinhos pequeninos não, tenho visto cachorros de grande porte, cães de guarda, em situações ridículas.
Ontem enquanto fazia uma caminhada, medrosa que sou, ao avistar um cachorrinho meio suspeito (e feio, foi o schnauzer mais que feio que já vi na vida) já fui dando um jeito de sair da calçada para o meio fio. Pois o desgraçado deu uma carreira na minha direção, e como estava com uma coleira extensora quase conseguiu me abocanhar. Dei um grito e pulei e sua dona olhou pra mim completamente indignada e falou muito brava: CAAAALMA!!! Como calma se o seu animal quase me mordeu? Já vi crianças serem atacadas e os donos dos cahorros nem sequer se desculparem.
Gostar, criar e cuidar de cachorros não é problema, o companheirismo e a fidelidade canina sempre estiveram presente em toda a história do homem, o que me espanta, e me irrita, é a falta total de noção sobre o espaço que eles vem ocupando nas áreas comuns das cidades nos últimos tempos.
Não sei não, mas tenho a impressão que se o livro Revolução do Bichos fosse escrita hoje, George Orwell colocaria os cachorros na linha de frente da narrativa, e os porcos fariam parte da camada oprimida... E sinto dizer ao Waldick Soriano, mas sua canção tão famosa também está ficando um tanto anacrônica nesses tempos de soberania canina:
Eu não sou cachorro, não
Pra viver tão humilhado
Eu não sou cachorro, não
Para ser tão desprezado